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segunda-feira, 25 de março de 2013

“Alemania contra Europa” (Juan López Torres) Censurado en el diario “EL PAÍS”

Oh, lecas, tu queres lá ver que...


DOMINGO, 24 DE MARZO DE 2013

Alemania contra Europa


En mi artículo de hoy en El País Andalucía comento la estrategia económica de Merkel que tanto daño está haciendo al resto de Europa. Una estrategia lamentable que recuerda, ahora a nivel económico, la búsqueda de “espacio vital” para Alemania de Hitler.

“Es muy significativo que habitualmente se hable de “castigo” para referirse a las medidas que Merkel y sus ministros imponen a los países más afectados por la crisis.

Dicen a sus compatriotas que tienen que castigar nuestra irresponsabilidad para que nuestro despilfarro y nuestras deudas no los paguen ahora los alemanes.

Pero el razonamiento es falso pues los irresponsables no han sido los pueblos a los que Merkel se empeña en castigar sino los bancos alemanes a quienes protege y los de otros países a los que prestaron, ellos sí con irresponsabilidad, para obtener ganancias multimillonarias.

Los grandes grupos económicos europeos consiguieron establecer un modelo de unión monetaria muy imperfecto y asimétrico que enseguida reprodujo y agrandó las desigualdades originales entre las economías que la integraban.

Además, gracias a su enorme capacidad inversora y al gran poder de sus gobiernos las grandes compañías del norte lograron quedarse con gran cantidad de empresas e incluso sectores enteros de los países de la periferia, como España. Eso provocó grandes déficit comerciales en éstos últimos y superávit sobre todo en Alemania y en menor medida en otros países.

Paralelamente, las políticas de los sucesivos gobiernos alemanes concentraron aún más la renta en la cima de la pirámide social, lo que aumentó su ya alto nivel de ahorro. De 1998 a 2008 la riqueza del 10% más rico de Alemania pasó del 45% al 53% del total, la del 40% siguiente del 46% al 40% y la del 50% más pobre del 4% al 1%.

Esas circunstancias pusieron a disposición de los bancos alemanes ingentes cantidades de dinero. Pero en lugar de dedicarlo a mejorar el mercado interno alemán y la situación de los niveles de renta más bajos, lo usaron (unos 704.000 millones de euros hasta 2009, según el Banco Internacional de Pagos) para financiar la deuda de los bancos irlandeses, la burbuja inmobiliaria española, el endeudamiento de las empresas griegas o para especular, lo que hizo que la deuda privada en la periferia europea se disparase y que los bancos alemanes se cargaran de activos tóxicos (900.000 millones de euros en 2009).

Al estallar la crisis se resintieron gravemente pero consiguieron que su insolvencia, en lugar de manifestarse como el resultado de su gran imprudencia e irresponsabilidad (a la que nunca se refiere Merkel), se presentara como el resultado del despilfarro y de la deuda pública de los países donde estaban los bancos a quienes habían prestado.

Los alemanes retiraron rápidamente su dinero de estos países, pero la deuda quedaba en los balances de los bancos deudores. Merkel se erigió en la defensora de los banqueros alemanes y para ayudarles puso en marcha dos estrategias.

Una, los rescates, que vendieron como si estuvieran dirigidos a salvar a los países, pero que en realidad consisten en darle a los gobiernos dinero en préstamos que pagan los pueblos para traspasarlo a los bancos nacionales para que éstos se recuperen cuanto antes y paguen enseguida a los alemanes.

Otra, impedir que el BCE cortase de raíz los ataques especulativos contra la deuda de la periferia para que al subir las primas de riesgo de los demás bajara el coste con que se financia Alemania.

Merkel, como Hitler, ha declarado la guerra al resto de Europa, ahora para garantizarse su espacio vital económico. Nos castiga para proteger a sus grandes empresas y bancos y también para ocultar ante su electorado la vergüenza de un modelo que ha hecho que el nivel de pobreza en su país sea el más alto de los últimos 20 años, que el 25% de sus empleados gane menos de 9,15 euros/hora, o que a la mitad de su población le corresponda, como he dicho, un miserable 1% de toda la riqueza nacional.

La tragedia es la enorme connivencia entre los intereses financieros paneuropeos que dominan a nuestros gobiernos, y que estos, en lugar de defendernos con patriotismo y dignidad, nos traicionen para actuar como meras comparsas de Merkel.”

Juan López Torres.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O desemprego e o empreendedorismo - a ilusão

Oh, lecas, tu queres lá ver que...

Todos nós conhecemos quem até há uns meses atrás defendia acerrimamente que só quem não quer trabalhar está desempregado e que agora está também desempregado. Mais interessante ainda é que ainda há muita gente que tem essa teoria de que os apoios sociais deveriam acabar. Ouço sempre com estupefacção quem, por exemplo, na Antena Aberta da Antena 1 vem defender esta teoria. E quase aos berros diz que têm de acabar os subsídios porque as pessoas simplesmente não querem trabalhar e por isso é que estão desempregados. Muitos dos que pensam assim não sabem, com certeza, que muita gente que está desempregada já nem recebe subsídio de desemprego. 
Associado ao desemprego anda o problema dos suicídios. Aumentam a cada mês. Em Espanha a questão tem sido mais visível porque está associada ao ritmo dos despejos que já são numa média de 600 por dia. São 600 famílias despejadas todos os dias. Mas a mentalidade de que o desemprego é culpa do desempregado fez carreira e faz carreira, principalmente nos países latinos e do sul. Estes países têm sido remetidos a uma função de meros prestadores de serviços. As actividades produtivas foram deslocalizadas. Portugal quis tornar-se um país de serviços. A isto andou associada a apologia do Empreendedorismo. O Empreendedorismo é, de facto, muito positivo. Mas foi uma ideia utilizada para ajudar a transformar Portugal num país que nada produz. Ao contrário do que se pensa, Portugal é o país que cria mais empresas, é o país onde o empreendedorismo fez carreira. Claro que isso andou associado à deslocação da produção para outros países enquanto se fez crer às pessoas que não havia problema nenhum em cair no desemprego, que isso era uma oportunidade. E estas louváveis ideias, que são de facto louváveis, foram utilizadas para criar a mentalidade que ajudou a enterrar-nos e que há-de enterrar-nos cada vez mais. Quando para o ano atingirmos 20% de desemprego, e no outro ano sabe-se lá que percentagem atingiremos, aí estarão os restantes 80% ou 70% ou 60% para garantir que a culpa do desemprego é dos desempregados. E assim continuar-se-á a defender inquestionavelmente o Empreendedorismo num país que cria imensas empresas que duram 2 ou três anos mas que não criam nenhuma estrutura, não acrescentam nenhuma sustentabilidade ao sistema, pelo contrário, tornaram-no cada vez mais dependente da circulação de dinheiro que não existia de facto, da entrada de financiamento externo que recolhia juros, etc. De tal modo que agora se está a ver precisamente isso: o nosso sistema é insustentável.
A Alemanha fez os seus negócios com a China, a União Europeia teve de ceder à China e a outros mercados porque isso interessava à Alemanha que lhes vendia a maquinaria. Porque a Alemanha, obviamente, não caiu na parvoíce de estrangular a sua produção, nem na estupidez de se tornar um país de serviços.
Vemos agora que há cada vez mais despedimentos colectivos porque aquilo que se faz em Portugal pode ser feito em qualquer lado, na Índia ou na China, sem grande dificuldade. Ao contrário da Alemanha, não estamos especializados em nada que exija uma perícia exímia, um conhecimento especializado. A Irlanda restabeleceu-se também (mas não só) porque tem essa especialização, tem um sector industrial bem desenvolvido e especializado. Coisas que não podem passar a ser feitas na China de um dia para o outro. Daqui a uns anos, quando a China estiver mais especializada do que a Alemanha, então talvez os Alemães comecem a pensar de outra forma. Por enquanto, Portugal vai ser deixado a afundar-se cada vez mais - no limbo, desde que, obviamente, seja o que for que aconteça, não ameace a moeda única enquanto esta for útil à Alemanha. Mas a China sabe isso. Faz contratos que não têm altos rendimentos imediatos, mas que lhes permite aprender, conhecer estruturas, adquirir conhecimentos técnicos e científicos, porque sabe que, no futuro, isso levará para o seu território também as indústrias de ponta. Aliás, essa deslocalização também já começou. A Apple, por exemplo, já deu o passo.
Continuemos, pois, com a ideia de que o desempregado é o mau da fita, de que o empreendedorismo é que interessa seja em que moldes for, que é bom é essa iniciativa individual de cada um (e reafirmo que isso é verdade - mas depende da forma em que seja feito) - continue-se com essas ideias e daqui a uns anos veremos que tudo o que há vem da China, e que não só, como os EUA já estão, estaremos dependentes dos bancos chineses, como também estaremos dependentes de todas as suas empresas - mas nessa altura, durante muito tempo, as suas empresas poderão dar-se ao luxo de nos explorar sem qualquer medo, porque o mercado interno Chinês, quando estiver no seu máximo, terá um tal número de consumidores que os empreendedores chineses se poderão dar ao luxo de cagar para todos nós!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Actualidade económica, política e social

Oh, lecas, tu queres lá ver que...

O Mundo da Utilidade


O problema de Portugal, para muitos, continua a ser haver demasiados anos obrigatórios de estudo. Para outros, é a estada na UE. Ainda para outros, são as pessoas que não querem trabalhar.


Se Portugal fosse o país com mais literacia, com mais educação, com mais gente a ler, e, simultaneamente, fosse tão pobre como é, tão metido na crise como é, então poder-se-ia dizer que, de facto, o problema era a educação a mais, ou que talvez andássemos a fazer outras coisas em vez das "úteis". Muito bem. Mas o que acontece não é isso. Será então que a solução e terminar com a escola aos 14 ou 15 anos e mandar os miúdos trabalhar?

Bem, a lista dos países mais ricos ou mais desenvolvidos não segue exactamente a lista dos países onde há mais educação ou mais leitura. E este é sempre um argumento usado por aqueles que acham que se deve estudar menos, ler menos e trabalhar mais.

Por mim penso que não é ler um livro que nos torna úteis. Por outro lado, duvido que o humano não seja senão uma espécie de martelo. Mas penso que aquilo que nos afasta da leitura e nos faz ter uma cultura anti-educação é a mesma mentalidade que nos tem afastado do sucesso. Ainda que possa também acontecer que estejamos todos errados quanto ao que significa ser bem sucedido.

Quando uma pessoa muito bem sucedida se suicida as pessoas estranham. Quando uma pessoa teve muitos azares, já não se estranha. Da mesma forma, pode suceder que em 2014 (antes era 2012, depois 2013) Portugal alcance finalmente uma boa situação económica. Com isto toda a gente parece cair na esperança, tal e qual como aquele que supõe que o "sucesso" lhe dará sentido. Mas também estes podem descobrir o contrário.

Portugal pode estar a caminho do sucesso. Não o neguemos. Imaginemos que sim. E pode, precisamente com isso, estar a tratar do seu próprio suicídio.

Esperemos para ver como será essa situação em que se estará economicamente saudável. Esperemos para ver para quem será essa uma situação "vantajosa". Leiam-se as notícias, as tendências da política nacional e internacional. Restrições na saúde, na educação, decadência da imagem do ser humano.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Polícias e cidadãos

Oh, lecas, tu queres lá ver que...


Nisto dos polícias contra os cidadãos verifica-se aquilo que Kierkegaard dizia: o mundo julga o cristianismo como uma bebedeira, o cristianismo julga o mundo como uma bebedeira. 
Falar em polícias e em cidadãos corresponde a um modo de ver as coisas. Outro modo é falar de cidadãos em geral - que também os polícias são (mas não enquanto polícias, relembra-nos o ponto de vista anterior). Então o que
 há de verdade em cada uma destas palavras, "polícia" e "cidadão"? Porque não se tratam só de palavras.
Os polícias foram apedrejados, mas enquanto cidadãos sofrem com a austeridade tanto quanto (talvez não "tanto", porque de facto têm emprego) o resto, tanto quanto os que estão à sua frente.
Enquanto autoridade não se deve apedrejar a polícia - rejeitar a autoridade seria o quê? Enquanto há um cidadão por debaixo do polícia também não deve ser apedrejado.
Atingir o polícia, não é atingir os responsáveis. O polícia só cumpre ordens.
Enquanto o polícia defende um estado de coisas injusto, vencê-lo é necessário para atingir o Estado. Vencer este estado de coisas justifica apedrejar quem o defende.
O polícia é também cidadão: quando bate esquece-se de quem era antes de entrar ao serviço; quando bate já não é uma consciência. Quando bate ele é um instrumento. Mas isso não o desresponsabiliza (ele bem pode usar essa desculpa para si mesmo), mas perante nós, ele DEVE TER CONSCIÊNCIA. Se o polícia bate quando o cidadão está a exigir justiça, a justiça que o próprio cidadão que também é polícia reconhece - nesse momento o polícia é uma máscara, o cidadão que também é polícia é um hipócrita.
Se a luta é justa, então o cidadão que também é polícia não se deve apresentar ao serviço. Tudo o que decorrer de ele se apresentar ao serviço é já uma perversão da consciência.

E há ainda uma outra forma de ver as coisas: há polícias e há humanos.
Enquanto há polícias têm o dever de manter a ordem, o homem sofre violência pelo seu próprio bem, em nome da sua segurança. O polícia é o braço seguro do Estado que confina o homem protegendo-o contra a natureza, contra os seus iguais, e mesmo contra si mesmo.
Mas o homem é humano e, como tal, ser aprisionado não lhe retira a sua natureza. A polícia é o homem que exerce sobre os homens a autoridade do Estado em forma de força. O polícia é a força do Estado, e neste sentido, ele bate quando o Estado bate. É o Estado que age, em nome dos homens.
O homem que é polícia é também humano. Não gosta de apanhar. Chateia-se se lhe atiram pedras. Mas é o Estado que legitima, que justifica a defesa da autoridade agredida. A agressão à autoridade é crime.
Mas o homem que é polícia tem o ser polícia como uma possibilidade. Quando ele simplesmente cumpre a autoridade que é a do Estado, ele despiu-se de si mesmo enquanto homem. Não há autenticidade nisto, porque o humano é com possibilidades. Não bater é tão possível como bater. Cumprir ordens é tão possível como não as cumprir. O homem que é humano é anterior ao homem que é polícia, porque aquele que é polícia também é humano. E ao contrário daquilo que ele julga quando diz "Só cumpri ordens.", não deixou de ser humano quando vestiu a farda.
Deve um polícia ser julgado por crimes cometidos que foram ordenados por um superior? Deve. Mas a questão nem é essa:

O homem que é polícia também tem uma consciência, porque é sempre humano - e, enquanto é sempre sendo humano sabe por isso o que é correcto, se o perguntar a si mesmo sem abafar a resposta com máscaras (ex. polícia, cidadão, homem). Bater ou não bater? Esta pergunta já está obscurecida, porque o cidadão olha para o polícia, o polícia olha para o cidadão, e nem o polícia percebe que podia estar do outro lado, nem o cidadão percebe que podia ser polícia. Nenhum dos dois percebe que é humano antes de mais nada. Pode-se perguntar o que diz a lei sobre o que se passou. Pode-se perguntar o que diz o Governo. Pode-se perguntar o que diz o agredido. Pode-se perguntar o que dizem os que agrediram. E parece que todos foram, de um lado e do outro, agredidos.

Provavelmente ambos os lados não estão completamente certos, e é possível que não haja um meio termo mais certo - porque ocorra aqui um obscurecimento anterior daquilo que está em causa. É possível que os polícias estejam certos (em nome de serem polícias) e errados (em nome de representarem a justiça dos cidadãos), e os cidadãos certos (em nome de serem violentados) e errados (em nome de estarem sujeitos à lei), porque talvez ambos estejam a ver mal.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Vontade e Resistência

Oh, lecas, tu queres lá ver que...



Nestas alturas aparece quem pretenda supostamente citar Darwin, provavelmente sem o ter lido.


Primeiro: dizem-nos que é uma questão de sobrevivência, que é a lei da sobrevivência dos mais fortes. Mas com isto supõem que está dado e adquirido o que seja isso de "mais fortes". No fundo acreditam saber o que é a força e no que consiste a sua aplicação correcta. Não se apercebem que isso não é claro. À primeira vista parece que o Tiranossauro Rex é "mais forte" que a "galinha". Mas seria preciso considerar o facto de hoje haver galinhas, e não haver tiranossauros. Na verdade, os dinossauros devieram galinhas para conseguirem sobreviver.

Segundo: então corrigem e dizem que é uma questão de sobrevivência, que é a lei da sobrevivência dos mais aptos. Mas com isto supõe que está dado e adquirido que ser "apto" significa "estar adaptado". Presumem as espécies se extinguem porque não estão adaptadas. Mas claro que isso é um equívoco: na verdade, a maior parte das espécies que se extinguem naturalmente, extinguem-se porque se adaptaram demasiado a um meio. Ou seja, dizer que temos que nos adaptar às circunstâncias vigentes para sobreviver é erróneo: foi a adaptação às circunstâncias vigentes que extinguiu as espécies que já cá não estão. A especialização é um problema, porque as circunstâncias mudam.

Esquece-se muitas vezes que o que fez dos seres humanos um tipo particular de estar no mundo não foi tanto a sua capacidade para se adaptar, mas a sua inadaptação originária. Qualquer livro de psicologia diz esta verdade - chamam-lhe prematuridade humana, neotenia, inacabamento, etc. O que faz a diferença específica humana não é, repito: não é o seu estado avançado em relação às restantes espécies animais. Mas sim: o seu retardamento. A nossa primazia, se há em nós uma primazia, não está em confundirmo-nos com o mundo, mas na nossa heterogeneidade relativamente ao mundo e à própria vida. O que nos fez fortes, se somos fortes, não foi a nossa capacidade de nos adaptarmos mas sim, repito: mas sim a nossa capacidade de adaptarmos o mundo, de mudarmos o mundo.

O que nos caracteriza não é a capacidade de cedermos às circunstâncias, mas de termos uma vontade, de resistirmos nessa vontade, contra as circunstâncias, apesar delas...

Quando o humano se tornar um ser apenas de adaptação, talvez já não valha a pena que sobreviva, porque já deixou de ser humano. Se se extinguir o que ficou da sua ruina, outro animal qualquer tomará o seu lugar.

sábado, 19 de novembro de 2011

Serviço Público


Oh, lecas, tu queres lá ver que...

Há uns anos dizia-se que o serviço público de televisão não tinha audiências - tendo como substrato a ideia de que o serviço público deveria produzir programas capazes de se financiarem, de uma maneira ou de outra, ou de, pelo menos, conseguirem uma fasquia considerável da população. Suspeito que esta avaliação, tantas vezes emitida por tantos, desde o programa "Prós e Contras", aos artigos de opinião em jornais, tinha uma intenção: tentar fechar o serviço público mostrando-o como inócuo na opinião pública, ineficaz ao nível da difusão.

Mas aconteceu que essas críticas levaram a uma re-organização do serviço e a RTP conseguiu, de facto, produzir eficazmente audiências. Passou a obter uma fasquia considerável do seu orçamento através da publicidade. Agora, os mesmos que há uns anos acusavam a RTP de não ter de se financiar e de não conseguir audiências, agora acusam a RTP de roubar o mercado aos privados. Reparem que são os mesmos, as mesmas pessoas.

Agora diz-se que o serviço público não deve financiar-se através do mercado - ou seja, que o serviço público não deve ter publicidade. Diz-se agora que o serviço público deve ser financiado pelo Estado. Simultaneamente, diz-se que o serviço público deve passar apenas o que os outros canais não passam, ou aquilo que não for roubar audiências. Ou seja, agora diz-se que o serviço público só deve produzir o que for ineficaz economicamente. O serviço público deve ficar limitado ao que dá prejuízo: sem publicidade, deve passar conteúdos que pouca gente vê (que não são atractivos para o privado).

Finalmente, diz-se que os canais públicos que pouca gente vê devem acabar (por agora apontam-se os canais da Madeira e dos Açores). Note-se que se se fizer o que estes senhores dizem, todo o serviço público será um serviço que ninguém vê.

O que se quer na verdade é obrigar o serviço público a não ser atractivo (pois que só passa o que não é atractivo para os privados), para depois se dizer que não deve existir serviço público.


Isto é tudo de facto muito parvo, tão parvo quanto o Estado poder agora censurar o que não é, na sua perspectiva, serviço público.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

1984-2014

Oh, lecas, tu queres lá ver que...

Poderíamos escrever um romance chamado 2014 em que a crise fosse utilizada pelo Estado para legitimar perante a opinião pública as suas decisões.

Parece ser isso que se passa. Isto faz lembrar o "1984" de Orwell. Neste romance, o Estado mantém-se em estado permanente de guerra. A guerra consome os recursos, mantendo a população num estado permanente de necessidade e de carência que, por seu lado, gera as condições necessárias para o controlo exercido pelo Estado.

No nosso mundo, a crise serve para justificar qualquer medida, por mais estranha que pareça aos ideais democráticos.

Os governos são cada vez mais compostos por tecnocratas do que por políticos. Diz-se que somos controlados pela Merkel, mas se repararmos bem, o governo alemão não é um governo de políticos, como os governos que antecederam o actual. O governo alemão de Merkel é sobretudo tecnocrata. Os governos europeus, sobretudo da zona euro, são cada vez mais meros executores de decisões que emanam de outros pontos. De onde? De centros que ninguém sabe muito bem onde ou em quem, concretamente, se materializam. As decisões parecem emanar de órgãos não eleitos sendo depois legitimadas pelos governos técnicos dos países.

Parece que existem duas opiniões base sobre o futuro da União: a federação e a polarização (duas europas a duas velocidades). Não sei se o federalismo será melhor, mas sei que isso deveria ser discutido. Contudo, o que acontece é que alguém decide essas matérias nos bastidores, e depois implementa-as "em nome da crise". Eles podem implementar o que quiserem, desde que seja em nome da crise.

Acontece que as coisas são implementadas de forma sub-reptícia. Provavelmente, nenhum político abrirá um referendo sobre a criação de uma federação. O que se fará será introduzir pequenas modificações no espírito das leis da União Europeia e dos próprios Estados-Membros. Por exemplo, começar-se-á por obrigar os Governos a levar os orçamentos de estado à Comissão Europeia antes de os levar aos próprios parlamentos nacionais. Introduzir-se-ão limites ao endividamento nas constituições nacionais. Obrigar-se-á os estados endividados a partilhar a sua soberania. E quando dermos conta disso já todos os estados estão endividados e serão obrigados a partilhar a sua soberania - os que não estiverem endividados serão obrigados a partilhar a soberania também, em nome da equidade. Finalmente, não haverá nenhuma soberania a partilhar, porque não existirá mais soberania. Se é que hoje ainda existe alguma.

O problema não é o que se faz, não é fazer-se uma federação, mas como tudo se tem feito, isto é, com o poder de decisão afastado dos cidadãos. São eles, os dos bastidores, não os cidadãos, que decidem tudo e depois impõem o que entendem em nome da crise. Alguém estará neste momento a decidir o futuro da União, e quando decidirem, com base nos seus interesses, alguém, um espantalho qualquer, virá à televisão transmitir-nos uma medida qualquer, que poucos entenderão, justificando-a em nome da crise. Pouco a pouco o que eles decidiram será feito, em nome da crise. Sempre em nome da crise. E nós, em nome da crise, aceitaremos tudo, porque está criado o pano de fundo ideológico que nos faz aceitar tudo: sabemos que estamos em crise, e que por isso têm que ser tomadas medidas. Quais medidas? Quaisquer umas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A crise do modelo de desenvolvimento ocidental e a emergência chinesa

Oh, lecas, tu queres lá ver que...

Sou capaz de acreditar que estamos a caminhar para um momento histórico de redefinição no Ocidente. O nosso modelo de desenvolvimento, o nosso sistema económico e político, estão cada vez mais moribundos e é presumível a sua queda ou reformulação a médio prazo, quem sabe, entre cinco a quinze anos.

Mas que alterações nos aguardarão?

Não estou certo de que as mudanças que se irão operar serão no sentido que consideraríamos, a priori, positivo.

Concedo que a necessidade crescente que a economia capitalista ocidental tem da China, bem como os elogios que os representantes financeiros mundiais têm tecido às políticas económicas chinesas - concedo que estes aspectos possam sugerir um determinado caminho. Podem configurar em si mesmos augúrios, presságios do que nos espera.

Sou capaz de acreditar que está eminente uma aproximação do modelo ocidental ao modelo chinês, talvez com algumas cambiantes. Mas, talvez o modelo do próximo futuro seja o chinês. A exportação do modelo chinês não ocorrerá, obviamente, às claras. Não veremos ninguém a empunhar armas e a implantar um sistema abertamente chinês. Não veremos propaganda a defender essa revolução.

Tratar-se-á de uma revolução paradoxalmente paulatina, mais lenta do que uma revolução habitualmente é, mas ainda assim, será de facto uma alteração brutal. Simplesmente, não será brusca, de um dia para o outro. Serão pequenas mudanças, nem sempre formalmente claras, que se imporão sempre pelas circunstâncias e em nome da população ou dos países, mas de forma irreversível o nosso sistema será cada vez mais como o modelo chinês.

Trata-se de simples evolucionismo político: o sistema que, num dado momento histórico, numa dada circunstância, perante certas condicionantes funciona melhor - esse sobrevive, os outros enfraquecem ou extinguem-se.

Há indícios: a Grécia que inventou a Democracia (democracia directa, embora não universal) há mais tempo que se inventou o Cristianismo teve que abdicar do referendo - as democracias ocidentais evidenciam medo relativamente a sufrágios universais; fala-se em discutir os assuntos mais importantes longe do conhecimento público, "porque o efeito de se saber que certas coisas se discutem é perverso" - pensar que é mau o público saber aquilo que se discute é sintomático de uma atitude não democrática (no sentido ocidental); o estabelecimento de governos sobretudo técnicos, sem verdadeira ideologia, como meros executores burocráticos é tão óbvio que nem seria necessário referi-lo - no governo alemão, incapaz de liderar, incapaz de pensar fora dos cânones do momento, nos governos da Itália e da Grécia que serão empossados nos próximos dias, até mesmo no governo de Portugal, o qual é mais um governo de técnicos do que um governo de políticos, mais um governo fantoche que um governo de decisões. Quando parece que o nosso governo toma decisões, devemos sempre resfriar esta ilusão com a realidade de que, na verdade, apenas cumpre ordens.

Enfim, alguns sinais estão aí. Veremos como será. Mas desconfio que no futuro estaremos tão próximos da China que podemos ser considerados a Macau do Ocidente (não me refiro exclusivamente a Portugal, mas ao Ocidente - talvez excluindo alguns países, como a Noruega, mas que poderão ser arrastados mais tarde).

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O nosso modelo económico: um cadáver adiado

Oh, lecas, tu queres lá ver que...

Já toda a gente percebeu que o sistema económico vigente apresenta graves falhas. Na verdade, já falhou.

Como se sabe que um sistema falhou? Quando ele se torna paradoxal. Ao longo da história vimos isso acontecer com sistemas e paradigmas filosóficos, científicos, políticos e sociais, económicos e mercantis, etc. A crise dos sistemas é sempre igual: a proposta explicativa do sistema leva a modelos de previsão paradoxais. Ou seja, torna-se um absurdo. O sistema cai e outro surge...

No nosso caso temos o mesmo: no sistema em que vivemos os entendidos prevêem determinadas hipóteses como solução para a situação problemática em que vivemos. Então, para alcançar as condições que reconhecem como necessárias para resolver o problema, sugerem determinadas actuações. No entanto, essas actuações, ao serem implementadas, provocam elas próprias danos na situação já de si problemática. Além disso, as condições previsivelmente boas que se desejam, têm por si mesmas efeitos colaterais na conjuntura, provocando a sua degradação.

Resumindo: a cura prejudica ainda mais o doente. Cada economista prevê que uma cura seja melhor que a outra prevista pelo seu colega. Mas todos os economistas sabem que todas as soluções que têm sido propostas acarretam graves consequências e que, potencialmente, irão agravar mais a situação em que estamos. Mas cada um acredita que, se a sua ideia for aplicada irá ocorrer um milagre que fará com que os resultados positivos sejam superiores aos negativos.

Ora, isto é um sistema em crise: quando os modelos explicativos que propõem resultam em dilemas paradoxais. Dilemas em que, qualquer que seja a acção tomada, o resultado será sempre contraditório. Qualquer das medidas que este sistema consegue prever são medidas que, para alcançar 2 ou 3 condições boas, provoca 4 ou 5 más.

Alguns economistas acreditam que devemos de facto piorar para poder melhorar. Acreditam, tal como os barbeiros antigos, que a fraqueza induzida no corpo pela sangria criará as condições necessárias à convalescença.

Na verdade, os nossos economistas, e os barbeiros (por vezes), até estão certos: criam-se as condições necessárias. Mas não as suficientes - e o problema está aqui.

Ora, temos duas hipóteses para sair da crise em que estamos sem mudar o sistema: 1ª - apostar na austeridade; 2ª apostar no investimento.

1ª: Com a austeridade criam-se condições necessárias para o crescimento, mas não as suficientes. Mesmo que se consiga reduzir o défice e a dívida para níveis razoáveis (o que é duvidoso, dados os efeitos recessivos das medidas), a economia real ficará tão mal, a situação ficará tão depauperada que, para voltar a relançar o país o Estado vai ter que se endividar outra vez e aumentar exponencialmente o défice.

2ª: Com um investimento suave e a manutenção de medidas brandas de contenção, os mercados e a conjuntura política europeia e mundial iriam apertar-nos tanto que teríamos que (depois de expulsos do Euro) cunhar moeda a rodes. Enfim, teríamos dinheiro, é verdade, mas ele nenhum ou pouco valor teria. Na verdade, não temos espaço de manobra para investir quando não temos dinheiro.

Em ambas as hipóteses se criam condições sem as quais não há crescimento, mas em nenhuma se criam as condições suficientes. É que, para criar as condições suficientes seria necessário aplicar ambas as hipóteses, o que é praticamente muito difícil (estou a tentar evitar a palavra impossível). Não é fácil poupar e gastar, por mais voltas teóricas e mudanças de definições ou escolha de palavras que se façam. Para poupar tenho de não gastar. Para gastar não poupo. É simples. Se gasto e poupo, vai dar ao mesmo (se poupo dez e gasto dez fico na mesma situação em que estava antes).

Nestas circunstâncias passamos a vida a discutir quem é que deve suportar os esforços, se mais os ricos ou mais os pobres. O problema foi escamoteado e poucos o têm referido: o problema não é saber quem deve pagar o quê, pois o problema está a montante: no sistema e nos seus modelos.

Mas os poucos, muito poucos, que têm feito referência a isto (à necessidade de discutir um novo sistema com novos modelos), têm-no feito como se as alterações necessárias e suficientes pudessem ser ditadas pela lógica deste sistema actual. Isso é errado: o sistema deve ser mudado, logo, as alterações a fazer não devem seguir a sua lógica. Se eu digo: "vamos ter que mudar o sistema, pois mostrou-se necessário terminar com o estado social" (saúde, educação, segurança social públicas) - estou ainda dentro do sistema.
Outros, desses poucos que referem a necessidade de mudar o sistema, pensam ser possível progredir voltando a trás. O que é parvo. Tentar melhorar este sistema utilizando matrizes de outros sistemas velhos que eles próprios falharam é parvo. Os médicos quando fazem um transplante de coração não vão colocar no doente um coração que, ele próprio, já teve um AVC. Seria muito parvo. Da mesma forma é parvo utilizar sentenças de modelos que faliram para converter o sistema em que estamos: estar-se-ia a converter um sistema moribundo noutro já morto.

Resumindo: precisamos de um novo sistema com novos modelos explicativos da realidade económica-social-política. Um mundo novo precisa de um novo paradigma. Mas este paradigma deve deixar de lado os preconceitos do velho. Tal como Einstein teve de se abstrair das teorias de Newton, tal como Galileu e Copérnico tiveram de se abstrair das teorias de Ptolomeu.

Mas imagine-se o espanto das pessoas quando alguém aparece a dizer que afinal a Terra não está parada! Imagine-se o espanto das pessoas quando alguém afirma que o espaço e o tempo são realidades que interagem com a matéria (e não simplesmente ocupadas por ela), e que a matéria e a energia são a mesma coisa! Aos contemporâneos de Galileu, Copérnico e Einstein pareceram simplesmente loucos. Mas é a loucura que faz pular e avançar o mundo.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A doença dos governantes: vírus governante ou lobotomia?

Oh, lecas, tu queres lá ver que...

Que nome daríamos a alguém que insiste em fazer o mesmo caminho esperando alcançar diferentes destinos?

Que nome daríamos a quem faz repetidamente coisas mesmas jurando, a cada vez, que irá obter resultados diferentes?

Nas séries CSI vemos que os investigadores tentam reproduzir acontecimentos para determinarem os resultados dos acontecimentos que investigam. Num episódio um polícia atirou um botão de um casaco ao chão, no mesmo local onde um suspeito teria perdido o seu, com o intuito de encontrar o botão que o suspeito perdera. Ora, aqui está: toda a ciência, na verdade todo o conhecimento só existe, só pode existir, só tem condições de validade se assumirmos a regularidade das coisas. Se X produz Y, sempre que eu fizer X, produz-se Y. Este pensamento tem dado frutos: prédios, estradas, televisões, computadores, relógios, etc....

Mas a economia não é uma ciência rígida. Tem muitas variáveis e lida com probabilidades. Muitos eventos económicos são incertos.

Conquanto tal incerteza, alguém espera que a austeridade provoque por si mesma a emancipação de uma economia. Sinceramente: alguém imagina que a subtracção constante origine suplemento?

Se percorremos o caminho da Grécia, como poderemos pensar que não nos estamos a dirigir para o mesmo fim?

É um erro pensar que a austeridade leva a prosperidade. Pode ser necessário rigor, alguma estabilização do exagero da dívida ou do défice. Mas jamais a austeridade levará à prosperidade. É uma simples questão de lógica. É preciso algo mais, outra coisa além da austeridade.

Enfim, o PSD na oposição afirmava que o PS não deveria apenas apostar no mais fácil, nos cortes de ordenados/aumento de impostos ou nos despedimentos. Na oposição, o PSD falava de cortes estruturais, de medidas sistémicas. Agora, no Governo, segue o caminho mais fácil: aumenta impostos, corta nos ordenados, despede trabalhadores. Cortes verdadeiramente estruturais e medidas sistémicas significativas não se vêm.

Parece que quando uma pessoa entra para o Governo é imediatamente assolada por uma espécie de estupidez endémica aos cargos governativos. É o vírus governante: não sei se é bem parvoíce, estupidez ou pusilanimidade. Uma pessoa enquanto fora do governo pode revelar boas intenções, boas ideias, boas acções, boas práticas profissionais, empenho e raciocínio extremosos - a mesma pessoa no governo parece ter sofrido uma lobotomia (em que a parte do cérebro destinada às virtudes foi compulsivamente seccionada).

Miguel Macedo abdica do subsídio de alojamento

Oh, lecas, tu queres lá ver que...

As ajudas ao arrendamento são uma coisa interessante. Um professor que viva na Grande Lisboa e seja colocado no Algarve a dar aulas, não tem direito a elas. Terá de custear, do seu bolso, o arrendamento de uma casa para poder trabalhar. Mas um Ministro tem direito a uma ajuda se for para o Governo em Lisboa e a sua primeira casa for no Algarve. Porquê?

Com toda a certeza porque os Ministros ganham pouco, são uma classe desfavorecida, por isso necessitam de ajuda por parte do Estado - o qual "tutelam". O que lhes vale, aos políticos em geral, é serem eles a decidirem dos seus próprios ordenados. O que é uma incumbência muito ingrata. Imagine-se que era cada um de nós a mandar nos ordenados de cada um. Seria uma balbúrdia, cada um a pedir para si. O que nos vale é os Políticos serem gente séria, se não fosse esse o caso poderiam estabelecer para si próprios pensões vitalícias e outras coisas parvas.

Mas os Ministros, 'tadinhos', são gente séria, ainda por cima desmesuradamente desfavorecida, como podemos perceber pelo facto de nem lhes ser garantida a existência de um Sindicato. Ainda bem que, ao menos, podem receber subsídios de deslocação, pois são forçados a trabalhar em Lisboa. Os seus ordenados baixíssimos seriam completamente dizimados se não fossem esses subsídios que a classe política, sagazmente, previu.

Finalmente, temos de reconhecer a magnanimidade dos políticos, como esses governantes que agora abdicam de receber ajuda do Estado para arrendarem casa em Lisboa. Eles que até têm de arcar com gastos de várias casas que possuem, não só na sua terra de origem, mas também em Lisboa (e não só...). Mas apesar de terem estes flagrantes gastos desmedidos com várias casas, ainda abdicam de receber a tão justa e legítima ajuda a que os Ministros, nestas circunstâncias, têm direito.

Visto que os Ministros são uma classe flagelada, é de admirar que ainda haja quem queira ser Ministro. Talvez queiram ser Ministros apenas por amor à Pátria.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Crise e Soberania

Oh, lecas, tu queres lá ver que...

(não) temos Soberania...

Para alguns Napoleão deveria ter-nos conquistado. Para outros, o problema vem de mais longe: a independência foi um erro. Para mais, cometemos o erro duas vezes: primeiro com D. Afonso Henriques, depois quando restaurámos a independência (no reinado de Filipe III, o IV de Espanha).

Mas agora parece que finalmente entregámos os nossos destinos a uma entidade externa mais competente: a troika. Na verdade são três entidades, o que lhes garante mais competência ainda. E podemos pensar numa quarta entidade, sempre por perto, a Alemanha.

Percebemos, já, que não nos sabemos governar. Não se percebe para que foi todo esse esforço quase milenar para conquistar, manter e reconquistar a independência. Nós acabámos por entregar a nossa soberania numa bandeja.

Se os Espanhóis de outro tempo se tivessem lembrado de tal esquema: em vez de nos mandarem exércitos, mandavam-nos "ofertas", propunham-nos a compra de casas e terras em Castela, vendiam-nos um rochedo, e assim nos levavam a endividar-nos. Depois, para pagar a dívida, teriamos entregue a nossa soberania. Como é que não se lembraram disso?

Imaginem os generais de Napoleão a vender-nos todo o tipo de propriedades, coisas muito úteis e também luxuosas, em vez de nos mandar soldados. Várias vantagens: não teria que suportar o preço do exército; ainda ganhava dinheiro; teria concerteza conquistado o nosso país, pois nós teríamos facilmente aceite a sua ajuda.

Com isto não estou a "recriminar" quem nos emprestou dinheiro, nem estou a dizer que não deveríamos pagar o que nos emprestaram. Estou a notar um facto: não sabemos governar-nos.

Por que será?

Cada povo tem os governantes que merece. E cada governante tem o povo que merece. Nós falamos muito mal dos políticos. Mas eles "somos" nós. São os políticos que temos, que somos. São como nós. Todos os dias reconheço em Sócrates o português comum, e no português comum Sócrates. Somos todos responsáveis. Todos. E, tipicamente à português, isto dá-nos um alívio especial.